sábado, 17 de março de 2012

Pobre Sebastião


Nasceu pobre, cresceu pobre, viveu pobre e agora?
Morreu pobre! Oras!
A vida lhe pregou tantas as peças, que não restou mais nenhuma a se pregar.
Sofreu de tudo quanto se pode imaginar!
E quando o esperado era se corromper, as peças que os pecadores pregam, ele não pregou.
Foi sincero, foi honesto, trabalhou e esforçou.
Entendo, que de muito sofreu, mas daquilo que provou, provas que é merecedor do céu!

Obrigado, ao doutor advogado.
Agora vamos ouvir do réu, o que tens a contar de sua vida.
A palavra é sua, Sebastião.

(nada se ouviu no tribunal)

Oras Sebastião. Nada tens a contar?

Tenho não, Senhor.

Como assim não? Qual sua história de vida?

Um pai e uma mãe. Dez irmão. Vinte filho. Trinta cachorro. E Madalena.

Hum. E como viveste?

Vivi bem, Senhor.

Sebastião, estás a contradizer seu advogado. Não fora pobre?

Fui sim, Senhor.

Então como dizeis que viveu bem?

Vivi tempo suficiente para descobrir que a felicidade não está nos bem que a gente carrega, Senhor.
Ela está nas coisas simples da vida. Tive dois motivos para aprender sobre carinho.
Dez motivos para aprender a compartilhar. Vinte motivos para aprender o valor da vida.
Trinta motivos para aprender sobre amizade. E não precisei mais que um motivo, para aprender sobre o amor.

Entendo, Sebastião. Aprendeu todas as virtudes da vida.
Então lhe declaro culpado, viverás o resto da vida no inferno.

Pobre coitado, Senhor. Olha como ele vai, em passos amiúdes e cabisbaixo.

Pobre de ti, advogado. Achou que eu não ia pregar mais uma pecinha no coitado.
(E as gargalhadas ecoaram)



Souza Neto


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